De mim para ...
Sempre foi gentil e curioso,
o danado do Rui.
Por nada mudaria.
Ainda que, sentado numa paragem de autocarro fosse.
Ali estava ele aguardando, pacientemente, o setecentos e cinco que
o levaria do Hospital de São João a casa, em Valongo. Mas assim que viu uma
pessoa de idade aproximar-se, levantou-se de imediato e cedeu-lhe o lugar. Eis quando sentiu que os seus pés pisaram algo. Pareceu-lhe pouco
volumoso e de papel. Fez um enorme esforço para se baixar mas lá conseguiu
apanhá-lo (ai aquela hérnia na coluna, nunca mais a via tratada).
Era uma carta rasgada a meio?
Há cá cada uma!
Meteu-a – disfarçadamente - no bolso das calças.
Ao longe avistou o autocarro e a sua ansiedade pela espera
diminuiu. Mas aumentou, na mesma proporção (quiçá mais) o abuso de a ler. Nem
esperou chegar a casa. Foi mesmo no autocarro, no lugar traseiro mais escondido
que juntou os dois pedaços, leu-os e perdeu o seu controle emocional:
“Carta de mim para mim:
Quantas saudades do meu Eu de
outrora.
Por onde andas vontade que
me traíste?
Por onde andas sorriso que
me fugiste?
Por andas tu (super) mulher
que foste?
Porque chora
permanentemente o teu coração?
Porque o enclausuraste?
Não vês o quanto apertaste?
Porque não lhe conferes de
novo liberdade de bater na sua plenitude?
Porque sufocas a tua
respiração?
Fica tão mais difícil viver
assim.
Aliás, fica impossível.
Já não sabes o que se sente
quando venta lá fora.
Já não sentes o prazer do
esvoaçar dos teus cabelos.
Para que os queres compridos,
di-lo?
Para te resumires a viver
em poucos m2 de um aposento?
Sê coerente: corta-os!
Substitui a vontade que
sentes de cortar os pulsos, pela vontade de aqueles cortar.
Ó se o conseguisses!
Que passo importante darias
no sentido da mudança”.
Texto de autoria de Lurdes Mesquita Babo
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