Carta de despedimento

​​​​         

Lisboa, 16 de Julho 2019.


​​​​         ​​​                           XPTO, Lda.

       

Ao Cuidado do Departamento de Recursos Humanos.



Ouvi dizer que o mundo acaba amanhã. 
E eu que tinha tantos planos para depois!​
Mas, tudo muda, tudo parte, tudo tem o seu avesso. 
E vocês sabem que a vida tem  pressa, que o tempo não pára, que o tempo é coisa rara e que a gente só repara quando ela já passou. Por isso, enchi-me de coragem e decidi pedir ao tempo que me dê mais tempo. Prometi-lhe que, de agora em diante, serei distante, pois eu não vou estar aqui.
O tempo anuiu e disse: 
- Se isto tem de acontecer é porque tem de ser e o que tem de ser 
tem muita força. 
Se é para acontecer, pois que seja agora.
Peço-vos: atentem em como bato a porta devagar.
Como, em jeito de despedida, olho só mais uma vez.
É que não podia ser de outra maneira.
Não ignoro que não será uma mudança fácil. 
Andei tantos anos a estudar para acabar desempregado. 
Ainda assim, verdade seja dita, entre ter um emprego da treta, mal pago e receber uma gorjeta que chamam salário, prefiro dizer-vos addio, adieu, aufwiedersehen, goodbye.
Desculpem, mas eu não tirei o Curso Superior de Otário. 
É que apesar de suar semanas inteiras, no bolso não trago um tostão.
Por isso, vou procurar alguém que me arranje um emprego bom, bom, bom.
Talvez até venha a tirar um curso de computadores, dizem que é um emprego com saída. 
Enfim, já não tenho mais assunto para escrever. 
Mais nada para vos dizer. ​
Espero que não demorem a mandar novidades (€) na volta do correio.
Mandem também cumprimentos meus ao pessoal.

Um abraço deste que tanto vos quis, sou capaz de vos visitar pelo Natal.

​​​​​​​​​      
​​​​​​​José Veloso, 

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